Trabalho e renda para superação da crise brasileira

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Conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (CAGED-MTb), divulgado esta semana, a movimentação no mercado de trabalho formal no Brasil encerrou o ano de 2016 com um saldo negativo de 1,37 milhões, foram 14,2 milhões de admissões contra 15,5 milhões de desligamentos. Trata-se do segundo pior resultado dos últimos dez anos, considerando que em 2015 o saldo negativo havia sido de 1,62 milhões. Em 2016, o salário mensal médio dos trabalhadores admitidos foi 12,9% menor que o dos desligados, pior diferença salarial da série histórica de dez anos, ou seja, maior compressão da massa salarial por aumento da rotatividade. No estado de São Paulo repetiu-se este mesmo cenário, com um saldo negativo na movimentação de trabalhadores na ordem de 401 mil.

A situação do mercado de trabalho no âmbito do setor químico também se agravou ao longo de 2016. A indústria química brasileira, que engloba desde a fabricação de álcool e biocombustíveis, adubos e fertilizantes, defensivos agrícolas, fibras, cosméticos, produtos de limpeza, químicos para fins industriais, tintas e vernizes, farmacêuticos, materiais plásticos e abrasivos, fechou 21.304 postos de trabalho no acumulado de 2016, com destaque à fabricação de álcool e biocombustíveis, químicos para fins industriais e materiais plásticos, que encerraram, respectivamente, 6.227, 1.638 e 11.902 vagas.

A indústria química do estado de São Paulo foi diretamente impactada por esta significativa redução dos postos de trabalho, totalizando 7.693 desligamentos no setor em 2016. Um terço dos desligamentos da mão de obra na produção de materiais plásticos e reciclados esteve concentrado no estado, relação que se agrava ainda mais quando olhamos para os segmentos de químicos para fins industriais e de tintas e vernizes, nos quais aproximadamente 42% de todos os desligamentos registrados ocorreram em São Paulo.

Estamos certos de que a solução para a longa e atual crise econômica brasileira se encontra no mercado de trabalho pela via da geração de emprego. Para que se tenham novos postos de trabalho é necessário que haja produção; a produção, por sua vez, requer um mercado consumidor aquecido, e este, finalmente, somente perseverará na existência de emprego e renda. A roda gigante da economia em seu looping sem fim pela produção, trabalho e consumo, tem ainda de lidar com o impacto de fatores diversos (inflação, câmbio, juros, crédito, endividamento, tributos etc.) sobre os mencionados eixos centrais.

A retomada do crescimento econômico somente será capaz de se realizar priorizando a criação de novos postos de trabalho, pois a geração de emprego e renda consiste do pilar que, além de recompor o consumo e a produção, é capaz de impulsionar a arrecadação tributária do governo – elemento tão reivindicado em “tempos de eterno ajuste fiscal”. A sanha desmedida por um ajuste fiscal severo arremessou a economia brasileira no fundo de um poço sobre o qual ainda se patina, já que diante de uma recessão a velocidade de queda nas receitas do governo é muito superior à capacidade de corte de gastos. Consiste ainda em nosso dever lembrar que o ajuste fiscal permanente atende somente aos interesses do rentismo financeiro, sempre disposto a sacrificar empregos, histórias e vidas, pela garantia do superávit primário e do pagamento de juros.

Precisamos lidar com a emergência da estagnação brasileira gerando postos de trabalho de qualidade, para que a dinâmica dos demais agregados econômicos possam se estabilizar e retomar uma trajetória de crescimento. As políticas de geração de emprego e renda devem ser pensadas e elaboradas junto às entidades de representação de classe para que assim possam alcançar real efetivação e não se reduzirem a mero discurso privatista. A desestruturação do mercado de trabalho brasileiro trará impactos ainda mais rigorosos sobre os níveis de pobreza e desigualdade social, bem como sobre o aprofundamento do trabalho informal (não tributado) e dos ‘descaminhos da sobrevivência’, por vezes taxados e condenados como “jeitinho brasileiro”, mas característicos aos povos de qualquer país em situação de precariedade.

Edson Dias Bicalho,
Secretário Geral da FEQUIMFAR e
Presidente do Sindicato dos Químicos de Bauru

 

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